segunda-feira, 4 de abril de 2011

´O que dá as cartas´



Publicado em 4 de abril de 2011 
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 FOTO: KID JUNIOR
Descartes Gadelha, modelo para o personagem Oiti do livro "Lenda Estrela Brilhante: "Ele é pretinho e gorducho como eu"
FOTO: KID JUNIOR



O multiartista Descartes Gadelha está lançando o livro infantil "Lenda Estrela Brilhante", premiado no Edital. Com a delicadeza que lhe é peculiar, Descartes falou de beleza, lixo, prostituição, carnaval, arte, barcos, saúde e doença
Você está lançando mais um livro infantil "Lenda Estrela Brilhante". Que história é essa?
Esse livro é um pequeno depoimento disfarçado da minha vida. Porque fui engolido pelo carnaval ainda criança. Na minha infância, nossa Capital era recheada de eventos culturais não patrocinados pelo poder público. A cultura era nascida, produzida e fomentada dentro dos bairros. Todo calendário de festas e manifestações populares estava presente nessa cidade, era vivido de forma intensa. 

Tínhamos São João da melhor qualidade. Lembro dos chamados "Caboclos da Parangaba" que, em novembro, saíam pelas ruas e distritos tocando e cantando para angariar fundos para a igreja, e muitos outros. Tínhamos os Pastoris que eram transmitidos ao vivo pela Ceará Rádio Clube e pela concorrente, Rádio Iracema de Fortaleza, os verdadeiros reisados, os autos de Natal e, dessa forma, eram os Maracatus.

Aos 10 anos tive contato com o Maracatu Estrela Brilhante e me contaminei com aquilo até hoje. Eu ia no meio do "canelau", porque as pessoas que não tinham dinheiro para sair no Maracatu, dançavam acompanhando a bateria, o batuque, lá atrás.

A ideia surgiu daí?
Pois bem. Eu, conversando com o Pingo (de Fortaleza), disse a ele que tinha vontade de prestar homenagem ao Estrela Brilhante. E ele gostou da ideia. Daí, escrevi, ilustrei e transformei em estilo de literatura infantil, até tentando dar um toque mais contemporâneo ao gênero. Porque, hoje, tudo está tudo muito ligado à robótica, à eletrônica, ou então, estão ainda nas Histórias da Carochinha.

Pensei em fazer algo atual, trazer a literatura infantil para temas do nosso cotidiano, tanto que aparece até o Ronda do Quarteirão. Mas, quando eu era criança, que morava na avenida Tristão Gonçalves, Fortaleza se dava ao luxo de ter ruas largas, com árvores plantadas ao longo delas, principalmente, oitizeiros, que é uma árvore bonita, frondosa, que dá frutos.

Percorria um quarteirão ou mais, de galho em galho, brincando com outras crianças. Comi muuuuito oiti, não queria nem comida de panela, e esse era meu apelido, porque eu também era pretinho e gorducho, eu era igual a um oiti! Daí o nome do personagem do livro.

Entre suas brincadeiras mais requintadas, estão as réplicas de veleiros. É mais uma paixão?
Estou proibido de pintar, por causa da doença, então... Mas os barcos são outra paixão, sim. Gosto de brincar de talhar barquinhos na madeira. Desde criança sou apaixonado por navegação à vela. É uma história cármica, algum vínculo reencarnatório. 

Porque a paixão é tão grande que, ainda hoje, na idade em que estou, me imagino dentro do estaleiro, conversando com construtores e carpinteiros. É fantástico! 

Penso em Camões, relembro as grandes navegações. As caravelas, como a internet, encurtaram distâncias, apesar dos barcos frágeis, à vela, sem motor, com alimentação precária. Quando estou na oficina cortando madeira, colando, fazendo uma velinha, me sinto navegando e digo: Deus, que maravilha ser uma eterna criança!

O senhor é pintor, escultor, escritor, músico, compositor. Tantos dons apareceram juntos?
Veja bem, nunca me considerei artista, acho uma palavra muito distante de mim, os outros é que dizem isso. Acho essa palavra muito pomposa, carregada demais para uma pessoa tão insignificante como eu. Sempre achei que artista era cowboy, o Tarzan, o Zorro, o Superman, mas não sou nenhum deles (risos). Mas, aos nove anos, eu já desenhava com perfeição. 

Bastava olhar qualquer coisa, que desenhava nas proporções corretas. Recordo os pintores de letreiros, eram senhores profissionais que tinham suas oficinas de pintar. E tinham muito trabalho, porque em Fortaleza tinha o Cine Diogo, Cine Moderno, Cine Majestic, Cine Rex, Cine Luz. Certa vez, um desses homens me viu pintando caricaturas nos muros próximos à Estação Central Ferroviária Professor João Felipe, eu morava por ali. 

E disse: ´você sabe desenhar mesmo, garoto? Pois desenhe aí um Rocky Lane. Eu sabia quem era o cowboy americano, porque lia muita história em quadrinho. Ele queria grande e colorido e me deu uma foto pequena e em preto-e-branco. 

Eu me trepava num banco e desenhava. Eles me pagavam com a coisa mais encantadora e maravilhosa da vida, que era chocolate. Por isso tenho problemas de intestino. Comi chocolate demais (risos). Mas, o impulso artístico é um só, seja para fazer uma loa ou uma escultura.

Como está sua saúde?
Há cerca de dez anos descobri o câncer. Já fiz várias cirurgias, até perdi a conta. Porque o câncer que tenho é turístico, ele quer fazer uma viagem pelos meus órgãos. Apareceu na próstata, foi para o intestino, passou pelo pulmão, e assim vou eu, diminuindo de tamanho, fazendo uma "lipo-órgão". 

Enquanto aparecer o que não presta, vou tirando. Ainda estou me tratando, porque são vários cânceres. Esses dias o médico me abriu, tirou metade do meu pulmão e fiz seis meses de quimioterapia. Quando terminou, apareceu outro no outro pulmão. Daí perguntei ao médico se já podia ir preparando meu escafandro (risos). 

Ainda bem que já fui mergulhador... Vou mandar buscar um Aqualand. E olhe que nunca fumei, nunca me droguei, sempre fui atleta, fiz luta livre, boxe, karatê, fui campeão de natação (mostra os músculos do braço), tenho pescoço grosso e corpo forte. É cármico mesmo. Só agora entendo que estava me preparando para receber esse amigo que ia redimir minhas traquinagens de outras vidas. Fica fácil entender mergulhando nessa compreensão.

Então, pela lei do espiritismo, o senhor acredita estar em um processo cármico?
Carma significa cumprir o compromisso, mas sua compreensão é ampla. Tudo o que ocorre está registrado dentro desse processo, ele é nosso código de barras. Carma é a regra. Quem traça nosso destino somos nós mesmos. Só que esse traçado obedece regras sociais interplanetárias, cósmicas.

Estamos passando por mudanças. O planeta está se corrigindo, está mudando seu eixo para uma determinada combinação cósmica com outras dimensões. Ele tem que se ajeitar, é uma questão de evolução. O processo é renovador, nada é destrutivo. Se não fosse assim, os dinossauros ainda estariam por aqui. 

Quando a natureza criou o espírito, foi para ser um coadjuvante de Deus, um colaborador, um trabalhador, um auxiliar, que, no Candomblé corresponde ao Ogan. Somos Ogans de Deus, de Olorum, que é como os africanos chamam Deus. 

O planeta é um grande centro de Candomblé, onde todos estamos trabalhando para Deus. Ainda não existe uma forma de ensino que transfira esse conhecimento de forma convencional, racional, programática. Mas um dia vai acontecer. Imagine uma faculdade que forme doutores em "Ogan de Olorum", que maravilha isso! O mundo seria outro.

Saúde, ou a falta dela, fazem parte dessa evolução?
Tudo faz parte da evolução. A maior glória da minha vida é o processo dessa doença. Foi a forma mais abençoada, acho essa palavra "bênção" tão meiga, de eu crescer, foi um presente de Deus. Mas só compreende o que estou falando quem tem um. O câncer é uma correção, a gente fica cada dia mais elastecido, iluminado, conhecedor e ciente da responsabilidade cármica.

O senhor tem uma longa trajetória ligada à música percussiva. Como é essa relação?
Não sou músico, sou animador de brincadeiras e utilizo as músicas que faço, que são ruins, tortas, cheias de nós pelas costas, para brincar. E as pessoas também encomendam: "Descartes, tem uma loa aí sobre tal assunto?". No telefone mesmo rabisco e faço. Ela vem como se eu fosse apenas o instrumento. Não sei quantas composições tenho, não faço ideia. 

Outro dia encontrei uma loa, que fiz em 1958, sendo cantada no mercado, porque lá sou freguês de panelada. Aliás, é lá que me curo da quimioterapia. Saio do médico e vou comer panelada com cuscuz. O "cancervéi" chega fica acuado quando a panelada bate nele... Mas, voltando, se contar de 1957 para cá, se eu tiver feito 20 músicas por ano, devem existir por aí mais de 300 músicas circulando. Mas nunca gravei nem anotei nada. Outro dia o Pingo gravou um CD de loas, mas a pretensão é só documental. Não tenho veleidades de ser músico ou compositor.

O senhor é conhecido por encontrar beleza onde, aparentemente, não existe. Prova disso é seu trabalho no lixão do Jangurussu. Fale desse período.
Acho que nenhuma beleza me atrai, a natureza é tão bela, que detalhes estéticos e superficiais não me seduzem. Certa vez, queria pintar um pôr-do-sol. Coloquei no carro material de pintura, cavalete, telas, tintas e peguei a BR-116, que naquele tempo ainda era estreitinha, sem viadutos, sem nada. Fui andando sem rumo, entrei num beco, me perdi, mas encontrei um céu de cor linda. Só que quando comecei a desenhar, tinha um mau cheiro que incomodava muito. 

Mudei de lugar, levei o material para mais longe, e nada de passar o cheiro de azedo. Daí, ia passando um garoto com um saco na cabeça e eu perguntei de onde vinha aquele cheiro horrível e ele apontou para detrás de um morro ao lado. Subi lá e presenciei uma das cenas mais chocantes da minha vida, o verdadeiro "inferno de Dante". Era o lixão do Jangurussu e lá estavam dezenas de pessoas buscando sua sobrevivência naquele chorume podre. 

A princípio chorei muito, fiquei paralisado. Mas, nessa mesma noite voltei e tive um surto recolhedor de almas. Encurtando a história, a partir desse dia, passei um ano e meio em cima do lixão, desenhando e pintando até na luz de candeeiro. Peguei todo tipo de doença que se pode imaginar, mas também fiz muitas amizades e muitos retratos. Só parei quando não aguentei mais.

Falando em beleza, várias obras suas têm como tema a prostituição...
Aos 20 anos, mergulhei fundo na prostituição. Fui para o Centro da cidade e lá tinham as madames, as pensões, os grandes cabarés e o Zé Tatá, que era a parte terminal, que ficava no lugar chamado "Curral". As prostitutas tuberculosas, com sífilis, acabavam lá. O Zé Tatá era penúltima etapa da decadência social e moral da mulher que perdeu a virgindade no interior. 

Presenciei tudo isso e passei a fazer leituras pictóricas desses ambientes. Durante muitos anos, em diferentes períodos, morei em vários cabarés, de mala e cuia. Porque você só faz uma boa matéria jornalística se tiver contato pessoal com seu entrevistado.

Aprendi a respeitar as prostitutas como seres superiores. Porque uma pessoa que apanha na cara e abaixa a cabeça, é um ser superior. Foram centenas de pinturas, desenhos e gravuras, acho que fiz uma espécie de doutorado e pós-doutorado na universidade "prostitucional". Eu sei tudo desse mundo que não existe mais. Vi muita coisa bela e muita coisa triste.

E agora, quais são os planos?
Ser melhor do que fui ontem, é só isso que desejo da vida. Fazer o menor mal que puder à natureza e às pessoas que convivo. Estou focado nisso.

NATERCIA ROCHAREPÓRTER

Descartes, o colhedor de almas


Descartes, o colhedor de almas

Publicado em 4 de abril de 2011 
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O Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc) possui grande parte do acervo de Descartes Gadelha
Tela pintada no lixão do Jangurussu, na década de 80





Um dos mais completos artistas plásticos contemporâneos, Descartes Gadelha, está às voltas com o lançamento do livro infantil "Lenda Estrela Brilhante". Simples e despretensiosa como seu autor, a publicação, premiada no Edital Pontinhos de Cultura da SecultFor, e realizada pela Associação Cultural Solidariedade e Arte (Solar), deu a deixa para o Caderno 3 fazer uma visita ao artista que, há mais de 10 anos, luta bravamente para conviver com o câncer
Foi em uma manhã chuvosa, que o escultor, pintor, escritor, desenhista, músico e nautimodelista, Descartes Gadelha, abriu as portas de seu casarão, que fica ali nas proximidades do Benfica, para receber o Caderno 3.

O mote da conversa foi o lançamento de mais um livro infantil, "Lenda Estrela Brilhante", que narra um pouco da infância desse artista cearense que vem escrevendo o lado feliz da história carnavalesca de Fortaleza.

Judiado por diversos cânceres que não cansam de tirar seu sossego, e que estão impedindo Descartes de exercer uma de suas mais notáveis vocações, a pintura, o artista não se deixa abater.

"Hoje, o mais brincante do Maracatu Solar sou eu. E se o câncer permitisse, eu desfilava em todos os Maracatus. O diabo é que o câncer é danado, mas eu chacoalho ele também. Porque o câncer quer agrado, quer que a gente sofra. Como eu não ligo, e como a brincadeira que está dentro de mim é intensa, a doença, coitada, fica desmoralizada", diz o artista, transbordando de bom humor.

Ao lado da esposa Verônica, dos filhos, Isabel e Leonardo, e dos netos, o filho mais velho das nove crias de seu Diderot e dona Geórgia, nascido e criado no Centro de Fortaleza, aos 67 anos, luta bravamente a favor do tempo. Hoje, a maior parte de sua vida é dedicada às réplicas de barcos à vela, que se espraiam por diversos cômodos da casa.

Nessa entrevista, Descartes partilhou experiências peculiares, dentre elas, o período em que morou no lixão do Jangurussu, no início dos anos 80, das longas e variadas épocas que passou em cabarés, e compartilhou a espiritualidade que vem entrelaçada à longa trajetória de fazeres e saberes que emanam de sua arte.

"Somos responsáveis por aquilo que conquistamos, bem ou mal. Já que não tenho capacidade de amar e fazer o bem, quero fazer o menos mal possível. Minha vida tem sido assim. Entendo que o egoísmo é a manifestação mais poderosa da falta de amor. O amor é tão humilde, tão grandioso, que você não percebe que ele está sendo processado. O egoísmo, ao contrário do amor, é pomposo, poderoso. E não tem como as pessoas escaparem da cobrança desse desequilíbrio", diz o Griô.

"Mas Deus é tão bom, a natureza é tão pródiga, que entende as pessoas que não atingiram a compreensão da vida, seu significado. Nós, como todos os seres vivos, nascemos para amar. Hoje, é só nisso que eu acredito". Saravá, Descartes!

NATERCIA ROCHAREPÓRTER

sexta-feira, 25 de março de 2011

Lançamento do livro “Lenda Estrela Brilhante” de Descartes Gadelha


Lançamento do livro “Lenda Estrela Brilhante”, de Descartes Gadelha em comemoração ao dia do Maracatu Cearense.

O Griô (Mestre) Descartes Gadelha lança neste sábado, às 19h, na sede da Associação Cultural Solidariedade e Arte – SOLAR sua mais recente criação. Trata-se do livro “Lenda Estrela Brilhante”. Idealizado, escrito e ilustrado  por Descartes Gadelha o livro aborda numa linguagem lúdica o universo do maracatu cearense através da história do menino Oiti (apelido de Descarte na infância) que em contato com uma estrela cria o Maracatu Estrela Brilhante.
Num trabalho de forte referência autobiográfica, Descartes Gadelha desenvolve inúmeras reflexões a cerca da “brincadeira” do maracatu, uma de suas maiores paixões, e nas páginas da “Lenda Estrela Brilhante” apresenta a este universo uma temática ao alcance do público de todas as idades.
Lançado para referenciar o dia do Maracatu Cearense (25/03) e contemplado pelo Edital Prêmio Pontinhos de Cultura da SECULTFOR – 2010, terá parte de sua tiragem distribuída entre os estudantes da rede pública de ensino do município de Fortaleza.
Por ocasião do lançamento haverá ensaio do Maracatu SOLAR e outras apresentações artísticas.


Data: 26/03/2011.
Horário: 19h.
Local : Avenida da Universidade, 2333, Benfica - Fortaleza
Entrada: Gratuita.
Maiores Informações:
Associação Cultural Solidariedade e Arte – SOLAR
Tel: 85-32261189

sábado, 19 de março de 2011

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A alma em cores e telas

A alma em cores e telas


O encontro do artista Descartes Gadelha com os catadores do lixão do Jangurussu foi dramático. Para entender aquelas pessoas, tão iguais e tão diferentes dele, Descartes os capturou na pintura. Para ele, o resultado não é arte. É outra coisa que não tem nome

19.02.2011| 16:00

Descartes encontrou os catadores do Jangurussu no início da década de 1980 (FCO FONTENELE)Descartes encontrou os catadores do Jangurussu no início da década de 1980 (FCO FONTENELE)

Depois de um certo tempo pintando no isolamento do ateliê, as tintas ficam viciadas e é preciso sair, colocar o cavalete no meio do tempo, diante de uma paisagem qualquer, para encontrar novas cores no mundo real. Era essa a intenção de Descartes Gadelha, pintor, músico e escultor, quando saiu em campo para pintar o pôr do sol. Não fosse o cheiro azedo que sentiu, teria sido uma tarde de inspiração estilística e só. “Me afastei, mas o cheiro continuou. Quando subi num monte de mais ou menos 15 metros, descortinou-se diante de mim o Inferno de Dante, ou pior”, lembra.

O encontro com os catadores do lixão do Jangurussu, no início da década de 1980, mudou completamente a vida de Descartes Gadelha. Depois de um ano e meio convivendo com eles, pintando cenas e personagens no lixão - um trabalho muito mais catártico e emotivo do que estético -, não deu mais para ser o mesmo homem. “Surtei. Foi dramático, fiquei doente. Ouvi coisas e vi cenas horríveis. Não tinha intenção de mostrar os trabalhos que fiz”, conta numa longa entrevista por telefone. No ano passado, a coleção completa foi exposta novamente no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará. A primeira foi em 1989, nove anos depois de Descartes finalizar a experiência no Jangurussu.


Para ele, as 70 pinturas, todas em óleo sobre tela, e os 50 desenhos feitos durante o ano e meio que passou no lixão, não são arte. “Queria capturar a alma daquelas pessoas para lê-las depois. Não estava preocupado com a beleza de nada, com o equilíbrio de nada”. As cores, os semblantes com vincos acentuados, as expressões do quadros, têm uma linguagem poética comovente e brutal. Uma tradução direta do espanto e do horror do artista diante do Inferno de Dante. (Mariana Toniatti)


OP - Até encontrar o Jangurussu sem querer, você não tinha ideia de como funcionava o lixão?

Descartes - Tinha informação, mas nunca tinha visto. Aquele momento foi um choque muito grande. Meu sentimento estava canalizado para um pôr do sol. De repente inverteu tudo. Me impressionou também a parte plástica. Era uma mistura de elementos, material e cores, que na minha paleta não tinha. Mas isso foi uma coisa secundária. O que me interessou mesmo foi compreender a alma daquele povo. Era um ímpeto, uma necessidade suprema de colher algo para a sobrevivência, que não os diferenciava dos urubus, dos cachorros, dos porcos. Eles se confundiam. Todos lutando pela sobrevivência.

OP - Nesse primeiro momento do choque você já começou a pintar?

Descartes - Busquei mais material e voltei. Fiquei desenhando sem entrar em contato para não ser considerado um fiscal da prefeitura, um jornalista. Não queria ser um vereador, que eles detestam. Não queria chegar lá por curiosidade. Quem trabalha com arte, pelo menos para mim, deseja a autenticidade da ação, a representação natural daquele instante vivido pela pessoa. Quando ela metia as duas mãos dentro da lama, do lixo, para colher um pedaço de pão, esse gesto não podia ser teatralizado e qualquer observação analítica de um forasteiro poderia interferir nesse movimento.

OP - Mas você conseguiu ficar invisível todo o tempo?

Descartes - Aos poucos passei a conversar com algumas pessoas. Ia merendar com eles, levava uma roupinha... Uma filantropia meio descarada, terrível. Contribuía um pouco, discretamente. Dizia que estava lá porque gostava de desenhar, achava bonito o lixo, o caminhão. Depois eles descobriram que estava era fazendo retratos e alguns posaram para mim. Pensavam que era uma pessoa desequilibrada, um pastor querendo doutriná-los, um fiscal, tudo menos artista. Eram desconfiados principalmente com quem ia colher dados para se beneficiar. Pessoas que se locupletam de ideias para mais tarde fazer um filme e ganhar um Oscar.

OP - Essa é uma crítica clara a Vik Muniz?

Descartes - Não vou nem ver o filme. Acho acintoso. Só quem conviveu pode compreender isso que estou dizendo. Qual a contribuição?

OP - Você teve outro contato com os catadores depois dessa experiência no Jangurussu?

Descartes - Alguns anos atrás passei a ver catadores empurrando carrocinhas e fiz outra coleção que chamei de Heróis do Papelão. Nos anos 90, eles catavam só papel e papelão. Fiquei muito impressionado, tanto com a questão dramática, a capacidade de caminhar pela cidade toda, como com o espetáculo plástico dos carrinhos. Eles são obras de arte efêmeras, mudam a cada pedaço de material colocado no carrinho durante a noite. Uma visão fantástica, quase surrealista. Dessa vez entrou mais a parte artística, estética, que a visão sociológica. Foi uma situação totalmente diferente. Tem a ver com a questão do lixo, mas é reciclagem. O catador vai direto no cara (deposeiro), pesa aquela colheita, compra o jantar, vai pra casa. É mais uma questão profissional, não é desespero. Nesse coloquei estética.

OP - Essa parte artística levou ao desenvolvimento de uma estética do lixo como já se falou tanto da estética da fome?

Descartes - Sim. A poesia num pai de família que sai andando a cidade toda para voltar mais tarde com alguma coisa, a parte plástica propriamente dita, o cenário da noite, o contraste violento do carro de luxo com a carroça. Existe um heroísmo e uma humildade muito grande. A maior grandeza daquela miséria absoluta de 30 anos atrás que conheci no Jangurussu, é a coisa mais importante que o ser humano pode conter: a humildade autêntica, não pela condição social, nem por se sentirem humilhados.

OP - Apesar de tudo, o catador não costuma ser uma figura deprimida, rancorosa, e com a questão da sustentabilidade em pauta, ele sabe que é importante nessa cadeia. Você percebeu isso quando os encontrou na rua, anos depois?

Descartes - Eles pegaram o termo reciclador como palavra de dignificação. Os ecologistas levantaram essas questões e esses termos chegaram ao catador. Inclusive no Jangurussu, onde foi instalada uma usina, um projeto piloto que não deu muito certo, entre outras coisas, porque empregou meia dúzia de pessoas enquanto no lixão tinham mais de 1500 trabalhando em turnos que viravam a noite. Essa é a melhor hora, inclusive. Chega o lixo nobre, que sai dos bairros chiques. Essa coleta é de madrugada, quando as pessoas estão dormindo e as lojas estão fechadas. É uma festa quando chega lixo dos restaurantes!

OP - Você quis pintá-los para contar essas histórias? Denunciar?

Descartes - Minha intenção não foi fazer arte engajada. Fui surpreendido por algo que não tinha vivenciado e tive um choque. Queria compreender o contraste entre um homem que almoçou peixe à delícia, vendo aquelas pessoas comendo lixo. Embora levasse alguns quadros para trabalhar na oficina, a parte psicológica era muito mais presente. Quando se faz uma obra com intenção de expor em galeria, de vender em leilão, se conceitua dentro de regras. É um crime premeditado, o meu foi passional. Queria capturar a alma da pessoa diante daquela situação sem nenhuma preocupação de fazer um rosto bonito. Era uma tentativa de lê-la depois. Quem é ela? Para onde vai? O que espera da vida? Será que tem religiosidade? O que estou olhando na tela não é arte. Está dentro do âmbito da arte porque é feito por um artista.

OP - E isso não tem nome?

Descartes - Os alemães chamam de expressionismo, mas não é não. Peguei problema de pele, bronquite. Talvez esteja doente porque não tinha a defesa que eles têm. Uma vez fiz uma pergunta idiota: ‘Vocês não ficam doentes?’ Já tinha bronquite, tosse... A resposta foi: ‘Aqui ninguém adoece. Ou se está vivo ou morto. Doença é para quem e rico’. É muita coisa que você escuta e vê. Surtei.

OP – A família e os amigos diziam isso?

Descartes - Não falava muito onde estava para não criar uma situação de interferência. Depois que saí do Jangurussu, foram nove anos sem expor os trabalhos pensando: ‘por que tenho que mostrar?’ Quando pinto tento fazer coisas bonitas, sou um esteta, trabalho com escultura, música, ilustrações. Praticamente joguei fora as telas do Jangurussu durante esses nove anos. Mas um dia fui ao Museu de Arte da UFC e o professor Eymar, diretor do museu, acabou me convencendo a levar pra lá. Imaginava expor para o âmbito da universidade, professores, pessoas ligadas à sociologia, mas alguém viu, divulgou, um jornalista foi até lá...

OP - E como foi a repercussão?

Descartes - Não sabia que era uma coisa tão impactante. Gerou um negócio muito grande, passaram a se preocupar em extinguir aquela chaga social. Até então não se falava sobre o lixão. Há três meses, expus de novo. Fui proibido de pintar por causa da minha saúde. Dessa vez fui eu que pedi para o Eymar, como uma exposição de despedida da pintura. Mostrei tudo o que foi possível: estudos, desenhos, rabiscos. E se você vê o conjunto das obras, não vai encontrar estética. Foi um trabalho de alcova, solitário, não obstante estar perto de centenas de pessoas, foi um drama único e pessoal. Não são pra venda. Não é possível, principalmente numa cidade de formação burguesa e aristocrática. Querem arte sofisticada, mais apurada, europeia. A que é espelho do cearense, a que mostra a realidade, as pessoas detestam. É um espelho cobrador, denunciador.

OP - Durante aquele ano e meio de trabalho no Jangurussu, não houve nenhum momento de prazer? Só sofrimento?

Descartes - Só. Vi inclusive a morte. Era muito comum chegar um carro de luxo e uma mulher jogar um saco plástico. Os cachorros caíam em cima. Era um feto, um aborto. Pintei os cachorros, aquilo tudo. Disse que ia chamar o IML, um dos catadores respondeu que era comum. Não adiantava. Outra vez vi uma criança ser compactada pelo trator na frente da mãe. A mãe botou uma lágrima: “É dolorido, mas é um anjo que Deus recebeu”. A humildade deles é tão grande, tão poderosa. Uma visão dessa não tem graça, não tem estética e muda você para sempre.


Loa oficial do Maracatu Solar 2011


Baixe Aqui o MP3 da Loa do Carnaval 2011 do Maracatu Solar



Loa oficial do Maracatu Solar 2011

Riscou no Céu

Descartes Gadelha, Pingo de Fortaleza e Calé Alencar

Riscou no Céu uma estrelinha
Até pairar na beira do mar
E o menino que lá sonhava
Deu uma saia pra ela dançar

Da madrugada fez uma calunga
E do trovão um tambor
De um pedaço do firmamento
Um estandarte de brilho azul
Da lua cheia fez uma rainha
E Assim nasceu o Maracatu
Estrela Brilhante de onde tu estas
Vem com teu canto comigo brincar
Me faz cantar aquele teu canto
Que hoje é saudade aqui no SOLAR